Dados do CAR-PCT revelam que a participação das mulheres é decisiva para manter a floresta em pé e garantir o acesso a políticas de pagamento por serviços ambientais
Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas), destaca o protagonismo feminino nos territórios tradicionais registrados no Cadastro Ambiental Rural de Povos e Comunidades Tradicionais (CAR-PCT). Os dados evidenciam a força das mulheres do campo paraense na organização comunitária e na proteção da floresta, conectando preservação ambiental, dignidade e acesso a políticas públicas.
No Pará, o CAR-PCT reúne 74 cadastros, com 20.633 pessoas inscritas, sendo 50% mulheres. A área total alcança 4.099.800,07 hectares, o que reforça a relevância desses territórios para a agenda climática e para o combate ao desmatamento, ao mesmo tempo em que fortalece a visibilidade de quem vive da floresta e contribui para mantê-la em pé.
O secretário-adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental da Semas, Rodolpho Zahluth Bastos, comenta sobre o protagonismo feminino na organização comunitária, proteção do patrimônio ambiental e do território. “O CAR-PCT é uma ferramenta estratégica para reconhecer os territórios de povos e comunidades tradicionais e valorizar quem mantém a floresta em pé. Os dados mostram que metade das pessoas tradicionais inscritas no CAR/PCT são mulheres, representando seu papel crucial na governança e organização comunitária”, ressaltou.
”Quando mulheres participam das decisões, a conservação tende a melhorar pois nos territórios, mulheres são guardiãs do conhecimento ecológico, sendo responsáveis por parte importante do manejo cotidiano da água, roças, quintais, coleta de recursos florestais, sementes, plantas medicinais, alimentação. Isso gera conhecimento fino sobre sazonalidade, mudanças ambientais, espécies úteis e áreas sensíveis. A partir desse registro, o Estado consegue orientar melhor as políticas públicas e ampliar caminhos para iniciativas de valorização da conservação, como os programas de incentivos ambientais”, afirmou o secretário-adjunto.
O CAR-PCT é dividido em três modalidades. Nos Territórios Quilombolas, são 49 CAR, somando mais de 778 mil hectares e 14.481 quilombolas inscritos até 2025, 7.357 mulheres (51%). A modalidade registra ainda 608 mil hectares de floresta, correspondentes a 79% do território, revelando a forte presença de vegetação preservada nessas áreas.
Nos Territórios Extrativistas (PEAEX), o Pará contabiliza 14 CAR, com mais de 704 mil hectares, beneficiando 3.708 pessoas, sendo 1.814 mulheres (49%). A área de floresta registrada chega a 637 mil hectares, o equivalente a 90% dos territórios, conectando o modo de vida extrativista à conservação ambiental. Por sua vez, as Reservas Extrativistas (RESEX), são 10 CAR, com 2,6 milhões de hectares (cerca de 26.172 km²) e 2.444 pessoas beneficiadas, sendo 1.064 mulheres (48%).
Mulheres que mantêm a floresta em pé
A realidade por trás desses números pode ser vista em comunidades do interior do Pará, como é no sítio Romana, em Oeiras, região Oeste do Estado, onde mora Rosileia Pantoja Trindade, que possui o CAR-PCT e relata que a rotina da família segue ligada ao trabalho com a terra e aos cuidados com o ambiente.
“A nossa rotina é acordar de manhã e limpar, colher os nossos frutos. Com o nosso trabalho, além de garantir a subsistência familiar protegemos o meio ambiente. Isso é muito gratificante”, conta.
Com o CAR regular, Rosileia Trindade é uma das famílias agricultoras do Estado que recebem o Pagamento sobre Serviço Ambiental (PSA). Para ela, esta política pública incentiva ainda mais o desenvolvimento da comunidade, além de preservar a floresta: “cultivar ainda mais a nossa floresta, para não desmatar”.
O trabalho que protege a floresta
Em Moju, na comunidade Castelo, a agricultora familiar Samara Castro dos Santos está em processo de regularização do CAR-PCT de seu terreno. “No dia a dia, a vida na comunidade Castelo, em Moju, é construída pelo cuidado com a terra, com o trabalho agrícola e com a consciência da importância da floresta para o futuro das nossas crianças e da comunidade”, relata.
Para a comunidade, o cultivo é parte da história e da identidade local e as mulheres têm papel decisivo no manejo das áreas produtivas. Entre as culturas tradicionais, ela cita açaí, cacau, cupuaçu e mandioca, reforçando a relação entre produção, cultura e preservação.
“As mulheres da comunidade realizam o manejo e o remanejamento das plantações para manter o solo produtivo, respeitar o tempo da terra e permitir sua regeneração, fortalecendo o equilíbrio ambiental”, conta Samara.
Para a agricultora, iniciar a regularização é mais do que cumprir uma etapa técnica, é proteger um modo de vida. “A minha maior motivação para iniciar a regularização do CAR-PCT nasceu do desejo de proteger não apenas a terra, mas a vida que ela carrega”, afirma. Ela destaca que o processo também representa “dignidade, segurança e esperança para quem vive do trabalho rural”.
“Quando o CAR estiver concluído, desejo que minha família tenha a segurança de continuar cuidando da terra que nos acolhe e sustenta nossa história”, completa.







